theatre-591717_960_720Baseada no mito de Orfeu e Eurídice, a peça Orfeu da Conceição foi escrita por Vinicius Moraes. Essa pérola do teatro nacional conta a história de amor Eurídice e de um músico que dá  nome à peça. Em um dia de carnaval, o romance vai da paixão à tragédia.

Leia um breve resumo da obra e, em seguida, confira uma adaptação do texto original, de forma breve e direta!

Personagens

ORFEU DA CONCEIÇÃO, o músico

EURÍDICE, sua amada

CLIO, a mãe de ORFEU

APOLO, o pai de ORFEU

ARISTEU, criador de abelhas

MIRA DE TAL, mulher do morro

A DAMA NEGRA

PLUTÃO, presidente dos Maiorais do Inferno

PROSÉRPINA, sua rainha

Duas AMIGAS.

Três participantes do BAILE

Resumo de Orfeu da Conceição

Orfeu, um sambista que vive no morro, filho de um músico e de uma lavadeira, apaixona-se por Eurídice. A paixão entre Orfeu e Eurídice desperta o ciúme e o desejo de vingança em Mira, ex-namorada do sambista, que leva Aristeu, apaixonado por Eurídice, a matá-la. Numa terça-feira, último dia de Carnaval, Orfeu desce do morro e vai até o Clube Os Maiorais do Inferno depois de Eurídice estar morta.  Já ensandecido, ele vai procurar Eurídice para ver sua amada, tentar encontrá-la novamente. De volta à favela, solitário, ele é morto por Mira e pelas outras mulheres instigadas por ela.

CENA 1

(Orfeu está em cena. Apolo e Clio entram e escutam a música de Orfeu.)

CLIO: Orfeu, por que ainda está acordado? Vá dormir, meu filho?

ORFEU: Sou Orfeu, mãe. Rei do morro. Toco o violão que o meu pai me deu e me ensinou. Nasci para cantar e para amar. Eurídice, Eurídice.

CLIO: Você está tão diferente meu filho!

APOLO: Ô mulher, deixa o menino!

CLIO (Olhando para Apolo): E você? Não sustenta um malandro, um coisa-ruim que só sabe contar muita garganta e beber sem parar no botequim?

(Apolo sai e deixa os dois conversando)

ORFEU: Ah, minha mãe, que bobagem! E para quê ofender o meu velho, homem tão bom, quanto músico, ele que me ensinou tudo o que eu aprendi.

CLIO: Ah, é que eu já estou meio chateada. Mas, Orfeu, o que está acontecendo?

ORFEU: Estou apaixonado por Eurídice, e com ela eu quero me casar.

CLIO: Não casa não, meu filho! Você nasceu para ser livre. Casar é pra rico. Ela é bonita. Como ela não existe mais ninguém. Mas não casa não!

ORFEU: Minha mãe, Eu quero Eurídice e Eurídice me quer. Teu Orfeu, minha mãe, também é homem. Precisa uma mulher…

(Clio sai zangada, e Orfeu continua tocando violão)

(Eurídice chega)

EURÍDICE: Orfeu, o que está tocando?

ORFEU: Estou tocando o meu amor por você.

EURÍDICE: Já está quase tudo preparado para o nosso casamento, já fiz até o meu vestido de noiva. Mas agora eu preciso passar na minha mãe.

(Eurídice sai, e entra Mira)

MIRA: Por que você não me quer mais? Você não me dá mais atenção como antes. Lembra-se de mim? Mira, o seu amor.

ORFEU: Não estamos juntos há muito tempo, então vá embora!

MIRA: É por causa dela, da Eurídice. Você ainda vai pagar!

(Mira sai revoltada, e depois Orfeu sai para o outro lado).

CENA 2

(Aristeu entra, enquanto Mira fica escondida observando no fundo)

ARISTEU: Eu sou Aristeu, pastor de abelhas, e onde está Eurídice, a minha amada? Ela não me quer. Só tem olhos para o tal Orfeu. Quem dera o amor dela fosse meu. Como eu invejo Orfeu, mas o amor dela não é meu. Eurídice, por que você está no meu caminho? Seu destino será fatal. Nunca chegará a dar à luz a um filho.

(Mira entra e respondendo a Aristeu).

MIRA: Isso não é verdade! Eurídice será de Orfeu, e lhe dará um filho daqui a 9 meses.

ARISTEU: Mentira, mentira! Eu não vou deixar!

(Os dois saem de cena)

CENA 3

(Orfeu entra tocando seu violão)

(A Dama Negra vem logo após, falando por trás de Orfeu.)

DAMA NEGRA: “A vida é curta, o amor é curto. Só A morte é que é comprida…”

ORFEU: Quem falou?

DAMA NEGRA: Alguém me chamou, e eu vim buscar.

ORFEU: Ninguém te chamou, vá embora. Orfeu é muito forte! Orfeu é rei! Vá embora, Senhora! E vá dançando!”

(A Dama negra vai embora gargalhando, e Orfeu fica preocupado)

(Eurídice entra)

EURÍDICE: O que foi, meu amor, por que está tão preocupado?

ORFEU: Mira veio atrás de mim muito nervosa, mas eu a mandei embora.

EURÍDICE: Não fique assim. O dia para nos juntarmos para sempre está chegando.

ORFEU: Com certeza meu amor. Amanhã nos veremos. Agora eu preciso ir.

(Orfeu sai, e Aristeu entra sorrateiramente, mata Eurídice, que cai no chão)

ARISTEU: Adeus, Eurídice.

(Aristeu sai atordoado. A Dama Negra entra e leva Eurídice, cobrindo-a com seu manto negro)

CENA 4

(Música de Carnaval. Três pessoas com roupa de carnaval dançando ao fundo. Mais à frente estão Plutão e Prosérpina, animando o baile)

PLUTÃO: Aproveita, minha gente, que amanhã não tem mais! Hoje é o último dia! Aproveitem, meus filhos, que amanhã é Cinzas! Afinal de contas, quem é que manda aqui?

TODOS: (Em coro). É o rei, é o rei!

(Plutão e Prosérpina morrem-se de rir. Orfeu entra.)

ORFEU: (Como se estivesse chamando-a) Eurídice, Eurídice.

PLUTÃO: Parem com tudo! Quem incomoda? (A música para)

PLUTÃO: Quem é você, e o que você quer?

ORFEU: Sou Orfeu, e procuro a minha amada, a Eurídice.

PROSÉRPINA: Ele quer é incomodar! Deixa ele, bem. Olha para mim!

PLUTÃO: Silêncio, mulher! Plutão está falando, Plutão, o rei dos infernos! Não quero ouvir nem o voar de uma mosca! Silêncio! (Dirigindo-se a Orfeu) O que queres?

ORFEU: Eu quero a morte!

PLUTÃO: Para de fazer gracinha! Diz de uma vez: quem sois tu, e o que queres?

ORFEU: Eu quero Eurídice!

PLUTÃO: Para fora! Aqui não tem Eurídice nenhuma. Está querendo é me acabar com o baile, pilantra? Aqui mando eu! Para fora, já disse!

(Orfeu sai. E a música continua por alguns instantes enquanto todos saem.)

CENA 5

(Entra Orfeu, falando e olhando para céu)

ORFEU: “Desce do céu, amor, toda de branco

(…)
Chega de leve pelo espaço; desce

Por um fio de luz da lua cheia

Vem ilusão serena, coisa mansa

Vem com teus traços abraçar o mundo

O mundo que sou eu, que não sou nada

Sem Eurídice… vem. ”

(Olha para o lado como se estivesse vendo a Eurídice)

(Entra Orfeu, falando e olhando para céu)

ORFEU: “Ah, sim, te vejo Agora… Estás ali… Por que tão triste

Minha Eurídice? Quem magoou a minha Eurídice?

Não, não fiques assim… Por que não falas?

Meu amor, me responde! ”

(Orfeu senta no chão, entram Mira e suas amigas)

MIRA: Então aí está você, Orfeu?

(Orfeu se levanta assustado)

AMIGAS (em coro): Então esse é Orfeu?

ORFEU: Mira, sai da minha frente!

MIRA: Você não foi de Eurídice, ela morreu. Não quer ser meu, então não vai ser de mais ninguém.

(Mira e as amigas correm atrás de Orfeu para matá-lo. Correm para fora de cena)

(Orfeu volta sozinho e senta no chão atordoado)

ORFEU: Eurídice, Eurídice!

(A Dama Negra entra)

DAMA NEGRA: Aqui estou meu Orfeu. Mais um segundo, E tu serás eternamente meu.

(A Dama negra cobre Orfeu com um manto negro e sai com ele de cena. Entra o locutor)

LOCUTOR:

“Juntaram-se a Mulher, a Morte a Lua

Para matar Orfeu, com tanta sorte

Que mataram Orfeu, a alma da rua

Orfeu, o generoso, Orfeu, o forte.

Porém as três não sabem de uma coisa:

Para matar Orfeu não basta a Morte.

Tudo morre que nasce e que viveu

Só não morre no mundo a voz de Orfeu”.

Já assistiu o filme ou a peça? Tem vontade de assistir? Escreva nos comentários!

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